Estranho Mundo Próximo

Estranho Mundo Próximo

ESTRANHO MUNDO PRÓXIMO

Estranho Mundo Próximo abarca trabalhos que envolvem as imagens e arquivos de familiares, amigos, objetos e ídolos, esses últimos tão próximos e tão distantes ao mesmo tempo. Também eu e minha imagem, minha intimidade como mulher, como mãe, artista, e meu cotidiano na arte.

Os rostos aparecem em grandes, médios e pequenos formatos, em um close cinematográfico que estabelece o recorte e aproxima quando é uma miniatura e cabe na palma da mão, ou provoca um distanciamento quando propõe uma escala maior do que a do corpo que observa de fora da pintura. 

Toda a pintura me é estranhamente familiar.

 

retratar

Retrato vem do Italiano RITRATTO, “fazer a efígie de uma pessoa”, do Latim  RETRACTUS, particípio passado de RETRAHERE, de RE-, “para trás”, mais TRAHERE, “tirar, puxar”, algo como “tirar fora” uma imagem. Também com a conotação inicial de “retirar, reconsiderar, voltar atrás”.

Retratar do latim retractare, fazer novo trato, retirar o que se disse antes, voltar atrás, pedir desculpas, corrigir ou emendar o que se disse ou se fez por engano. 

O retratar é o desejo de retrato. Espaçamento de alteridades. Vertigem e ambiguidade.

uma cor não é só uma cor

São pinturas de naturezas mortas em suportes encontrados, muitas vezes sobre pinturas encontradas.

São estudos de observação e meditação sobre a interação das cores.

As cores aparecem nas composições em reflexos, uma dentro da outra, como a sombra de uma fruta na mesa, nos reflexos de um objeto no outro e também em resquícios de pinturas que já estavam no suporte. 

Essa série aborda a pintura em si, a pesquisa constante e insaciável da cor e o próprio ato de pintar (faço um autorretrato no reflexo de bolas de vidro registrando o momento em que pintava).  

Uma cor nunca é só uma cor, em vários sentidos. A pintura constrói seu significado primordialmente por meio da cor, e a poética da pintura, seu pensamento, se dá por meio da sensação das cores construindo as composições que afetam os sentidos.

Além de significar e formar as composições, estão em constante movimento e mutação devido à luz e ao reflexo de uma cor na outra, em contaminação mútua. Um cor nunca está congelada no espaço, ela é mutável, uma sensação em movimento. Segundo Josef Albers em A interação da cor, quase nunca se vê uma cor como ela realmente é fisicamente e isso faz com que a cor seja o meio mais relativo entre os empregados pela arte. 

sobre tudo aquilo que não falamos

Amo tanto essas imagens deixadas por meu pai.

Assim, resolvi fazer alguma coisa com elas, alguma coisa que fosse um trabalho de arte.

Chamei um grande amigo de papai, que hoje é um grande amigo meu, o Marcelo, para que fizéssemos esse trabalho juntos. Já que sempre estamos a conversar sobre meu pai e tudo o que ele fazia.

Desde que papai morreu, há sete anos, convivo com os objetos, móveis, alguns lençóis, fotografias muitas, obras incríveis e desenhos, rascunhos inumeráveis que ele fez. 

Os slides estavam guardados em um armário junto com seu currículo e pastas com recortes e catálogos, convites e todos esses comprovantes de que nós artistas necessitamos para provar que fizemos alguma coisa.

Eu não conhecia essas imagens. Comprei um projetor antigo pela internet e comecei a conhecê-las. 

São fotos que ele ou alguém que estava com ele tirou. As ordenei em grupos, de paisagens, animais, trabalhos, pessoas e família. Ele aparece em algumas, que para mim são as mais raras, provavelmente autorretratos com a câmera no disparador automático. Todas as fotos sem legendas. 

Sei que muitas foram tiradas na Finlândia e em alguns outros países pelos quais viajou. Consigo reconhecer nessas imagens, além dos familiares, somente uma pessoa: Caetano Veloso. É tudo que vejo.

Eu amo tanto essas imagens que as agrupei e apresentei como um trabalho, elaborado junto com o Marcelo Kraiser, na exposição “Estranho Mundo Próximo”. São projetadas em cacos de papel transparente suspensos no ar. Nunca aparecem inteiras, só em fragmentos. 

Pra mim, são como meu primeiro filme. Um filme que fala sobre tudo aquilo que não falei e sobre o que não falávamos, eu e meu pai. 

meu avô maestro delê

“Não é a fotografia que devora a pintura, como se temia, mas a pintura que digere pouco a pouco a fotografia.” Gilles Néret / Arte Erótica

Série de têmperas ovo feitas a partir de acervo fotográfico de meu avô, que era músico, compositor, maestro e fotógrafo. Delê iniciou a carreira artística na década de 1930. Do final dos anos 1930 até 1946, quando ocorreu o fechamento dos cassinos no Brasil, sua orquestra tocou regularmente no Cassino da Pampulha, em Belo Horizonte. Teve sua primeira composição gravada em 1940, o samba “Um Verdadeiro Amor”, na voz de Murilo Caldas, pela Victor. Em 1942, o samba “Retratinho dele”, com Pedro Caetano e Claudionor Cruz, foi gravado na Odeon por Dircinha Batista. Em 1945, teve dois sambas gravados: “Direito de Amar”, com Artur Costa, lançado por Nelson Gonçalves, pela Victor, e “Eu pulo a janela”, pelo grupo Quatro Ases e Um Curinga, na Odeon.

Eu – neta de Delê, artista plástica e também letrista e cantora – fiz essa homenagem-retrato que inclui 33 pinturas em pequeno formato a partir das fotos originais do acervo herdado. A apropriação, nova configuração e montagem dessas memórias registradas e sobreviventes contam novas histórias, são novamente incorporadas e revividas em uma simbiose pictórico-fotográfica.

árvore

Retratos em pequeno formato circular, formatos frutos.

A vontade de fazer esses pequenos retratos circulares surgiu pelo contato com os miniaturistas do renascimento, em especial o inglês da era Isabelina, Nicholas Hilliard (c. 1547 – 1619). Os retratos eram realizados por encomenda para galanteios entre pretendentes, pretensos e inventados amores e em memória dos familiares, resquícios de um rito fúnebre, o formato reduzido proporcionava o envio em cartas e o afeto de guardar as imagens em pequenas caixinhas, de segurá-las na palma da mão ou de carregá-las em pingentes de joias e anéis sobre o corpo. Nicholas Hilliard retratou sua família e a si mesmo em uma coleção de minirretratos, criando um nicho familiar. Árvore é uma genealogia fictícia e afetiva em que retrato a mim, minha família, amigos e ídolos. Está sempre em crescimento e em processo.

a pequena idade do gelo

Acredito que a arte apresenta-se como fundadora de sua própria realidade e atribui a essa realidade um caráter especificamente ambíguo, obscuro e enigmático.

Ela passa a ser promotora do que chamo de estranhamento, essa sensação de que se prefere falar de um lugar que está além ou à margem do mundo. Em meu processo as imagens surgem, a princípio, a partir de necessidades nem sempre claras, mas logo estabeleço uma rede de conexões que formam algum eixo.

Esse nicho de trabalhos trata-se de uma fase, ou momento que creio ser a pequena idade do gelo de minha própria pintura. A pintura tem os seus períodos, necessidades e porque não, estações.

A paisagem de neve me fascina desde a infância quando via os quadros de Peter Bruegel o Velho, em especial “Os caçadores na neve” e “Paisagem de Inverno com patinadores e armadilha para pássaros”. Naturalmente são imagens instigantes, por serem cenas de neve cheias de crianças, por possuírem uma estranheza hipnótica com seus mil detalhes, simbolismos e sintomas. E a armadilha para pássaros que se encontra nas duas pinturas, em uma no primeiro plano e em outra lá longe na paisagem, armadas, à espera me capturou. As figuras, em sua maior parte crianças, em minha “pequena idade do gelo” em alguns momentos parecem astronautas em um planeta desconhecido, explorando a paisagem, a superfície, buscando constantemente algo que não se apresenta. Elas apontam para caminhos possíveis. A partir das pinturas comecei a fazer intervenções nos livros e gravuras de Bruegel com grafismos que chamo de “folhas e ossos”. São silhuetas de folhagens inventadas que criam um jogo entre a forma e a contra-forma, a não dicotomia entre vida e morte. Também surgiram dois objetos chamados “Jardins para Peter Bruegel the Elder” que são caixas transparentes, uma com ampulhetas de areia branca emaranhadas e outra com bastões de carvão vegetal emaranhados. 

folhas e ossos - fósseis

São pinturas de paisagens estratificadas em forma e contra-forma. Como pseudofósseis são folhagens e ossadas inventadas a partir da improvisação. O olhar não consegue compreender as duas ao mesmo tempo, oscilando entre forma e contra-forma.

A pintura acontece em camadas, estratos, como os solos e as peles. Em misturas de pigmentos ou/e veladuras que velam e fazem ver. Esse jogo, consciência e liberdade fazem parte do pensamento pictórico.

Além desses elementos estruturais, as folhas e os ossos, também são visíveis estilhaçamentos. Cacos de cores, pedaços de continentes inventados a se afastarem lentamente em um mapa. Uma primeira parte ou continente que a partir de uma fissura se rompe gerando um canal, um afluente de cor. Surgem sobre suportes infinitos.

madonas brasileiras

(…) Na série Madonas Brasileiras, que dá título à mostra, pinturas realizadas em variadas técnicas, formatos e suportes revelam os principais assuntos e interesses de Leonora e que atravessam toda sua carreira. São eles o retrato, a memória, a família, a maternidade, a apropriação da imagem fotográfica pela pintura, o papel da mulher na construção da sociedade e sua representação. Em seu trabalho, histórias individuais se tornam representações da coletividade, estabelecem delicada relação com temas essenciais à construção da nossa identidade. As Madonas são pinturas realizadas a partir de registros familiares das mulheres escravas conhecidas como Amas de Leite, um registro perturbador de uma parte dura e violenta de nossa história, da configuração das famílias brasileiras e que tem intrínseca relação com o processo de sedimentação da família patriarcal presente até os dias de hoje. Essas imagens carregam tamanha ambivalência pois revelam o servilismo e o afeto, a dureza e a tristeza do olhar dessas mulheres. A iconografia da mulher negra na sociedade brasileira é fonte material para sua pintura. Ao retrabalhar essas imagens, que circulavam no âmbito doméstico e hoje se encontram em museus, ela investiga como a fotografia é fonte imprescindível para o entendimento da historia do país e da formação da família brasileira desde a colonização. A artista nos oferece um espaço para compreensão da nossa realidade social marcada pela invisibilidade dessas mulheres e pelo racismo estrutural presente nos dias de hoje. (…) Trecho do texto curatorial de Manu Grossi

espaços para o esquecimento

São páginas de um grande livro-mapa onde utilizo rastros de minhas próprias imagens e arquivos para criar diagramações fantasmáticas. Textos, imagens e áreas de cor que flutuantes convivem e não geram informações que comunicam algo.
Exercício de mapeamentos não informativos de memórias e esquecimentos.

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